Sou um pária na sociedade. Em um mundo onde demonstrar é
considerado ruim, eu me derramo e me entrego de corpo e alma.
Me chamam de emocionado, desesperado, dizem que sou fácil demais,
que me entrego demais, que demonstro demais.
Deveria eu ser mais frio e calculista? Deveria fingir não me
importar, deveria viver na angustia de não dizer o quanto me importo? Deveria não
demonstrar que gosto? Fingir que sou uma máquina, que não há um coração
pulsando neste peito?
Quem me dera, não ter me envolvido com a poesia em minha
juventude. Quem me dera ser capaz de ser tão cínico a ponto de sentir e nada
dizer, nada demonstrar a esse respeito. Quem me dera não ter nascido com um
coração que dói e clama por amor e carinho. Quem me dera ser como os “normais”,
que passam suas vidas almejando o tudo que existe nos sentimentos, sem os demonstrar
nunca a ninguém. Quem me dera fosse capaz de ser desapegado e distante como o
mundo exige de mim. Mas não sou. Nasci com um coração que pulsa sangue e não óleo
de motor. Um coração que vibra e se emociona, e jorra palavras carregadas de
sentimentos.
Não nasci máquina, sou feito de carne, ossos e sentimentos.
Sou o amor, a luz e a compaixão que existem em mim. Não sei ser menos intenso,
não sei não demonstrar, não sei não sentir. Ou eu sou algo, ou eu nada sou. Não
sou meio termo, sou quente como o fogo, sou brasa de fogueira, sou a lava de um
vulcão. Sou o fogo que crepita os sentimentos do mundo, do meu mundo. Sou a
chama que aquece os corações alheios, sou a luz que ilumina as trevas nos
corações aflitos. Eu sou meus sentimentos, eu sou meu coração e meu coração não
sabe não sentir. Nele habitam a dor e o medo é verdade, mas também é nele que
se encontra toda compaixão, todo amor, todas as paixões que senti e sentirei em
minha tola, mas magnifica existência.
Sou um proscrita neste mundo, inundado de sentimentos que
transbordam de minha alma. Eu sou o que sinto, e se demonstro é porque não sei
ser menos do que eu mesmo. Tentei, eu juro, agir como o resto do mundo, frio, distante,
desapegado de sentir. Mas tudo que consegui com isso, foi me perder e me
martirizar, por anos a fio, com uma dor e uma sensação de vazio que me fizeram
enlouquecer a ponto de me afundar tão profundamente em meu abismo que eu cai e
não fui capaz de me levantar por muito tempo.
Se sentir for um pecado eu sou um condenado, pois tudo que
há em mim neste momento são sentimentos, e eles transbordam, eles irrompem, eles
me dilaceram as entranhas. Passei tempo demais tentando ser o que o mundo
queria, e me perdi numa sociedade doente, carente de fazer o básico que é
sentir.
Não me entregarei mais, me armarei com o que há de melhor em
mim e partirei para esta guerra chamada vida, onde a sociedade estará contra
mim, contra tudo que sou, contra os sentimentos que carrego e distribuo como alimento
aos famintos. E que Deus me perdoe se eu estiver errado, mas seguirei com
minhas convicções, pois não sei ser menos do que sou. Eu sou meus sentimentos,
meus sentimentos são o que sou e se o mundo diz que isso é errado, já não quero
mais fazer parte deste mundo.
Serei o farol que iluminara os corações daqueles que se
escondem nas sombras de suas dores, de seus temores, de seu não demonstrar. Serei
verdadeiro comigo mesmo e com o mundo, e se preciso for, me tornarei um mártir,
pelos sentimentos que carrego comigo. A luta será intensa e talvez isso me
destrua aos poucos, mas como já disse e repito, não sei ser menos do que sou,
não sei deixar de demonstrar e se um dia o fizer, tenho a certeza que morrerei
como ser humano e eu já estou cansado de ter de renascer de minhas próprias cinzas.